5 conselhos aos novos religiosos

Nesta terça-feira, dia 9 de Junho, padre Cláudio Weber, scj, vigário paroquial do Santuário São Judas Tadeu completa 48 anos de vida religiosa. Por isso, a ocasião tornou-se oportuna para pedir a ele que escrevesse um pouco sobre o início de sua caminhada vocacional, além de destacar 5 conselhos aos novos e novas religiosos e religiosas. Temos a esperança de que suas palavras poderão, com sorte, encontrar o coração de muitos que estejam necessitados de uma “luz”.  Confira no texto abaixo:

O que dizer a novos religiosos?

Tornei-me religioso e padre dehoniano pelo testemunho dos padres da minha paróquia. Eram amigos, acompanhavam as famílias da minha comunidade, Boa Visa do Buricá, RS. Tinham espírito missionário, atendendo uma vasta região, hoje transformada em vários municípios e paróquias. Por isso nem sempre estavam na sede, nem mesmo em todo domingo. Mas nesses domingos a comunidade se reunia, as famílias compareciam à igreja para a oração. Recitava-se o terço e lia-se o evangelho do domingo. Rezava-se pelos padres e por novas vocações. Esta era uma atenção pastoral que os padres dehonianos cultivavam com carinho. Certamente por isto mesmo saíram das famílias desta paróquia muitas vocações para a vida consagrada. Mais de cinquenta tornaram-se religiosos, irmãos e padres, e religiosas de diferentes congregações de irmãs.

Nesse ambiente, portanto, não soou estranho a meus pais e familiares o fato de querer sair de casa para frequentar o seminário da Congregação dos padres da minha paróquia. Eu tinha só 11 nos. Meus pais eram amigos dos padres e confiavam neles.  Com eles eu fiz um percurso de formação durante toda a minha adolescência e juventude.

Aos 27 anos de idade, concluída a faculdade de filosofia e estudante do 3º ano de teologia, fiz a minha consagração, pronunciando os votos de pobreza, castidade e obediência. Sabia bem o que estava fazendo: consagrava a minha vida ao serviço de Deus, confiava os meus limites e fragilidades ao amor do Coração de Jesus, e rezava para que ele transformasse o meu coração num coração semelhante ao seu. Queria servir a Deus e ao próximo, antes de pensar em mim mesmo.

A visão do “servir ao próximo” era, evidentemente, influenciada pela cultura rural e católica daquele tempo, dos tempos da minha infância e juventude, fortemente marcada pela vida de família e de pertença à Igreja, mesmo que já soprassem fortes os ventos de mudança dos anos 60 e início dos 70. A Igreja começava a aplicar as orientações do Concílio Vaticano II e dos bispos brasileiros e latino-americanos. Eu sabia algo dos desafios e perspectivas de futuro que encontraria. E confiava no coração de Jesus. Sabia que não sabia tudo. Teria que buscar discernimento no estudo, no acompanhamento das necessidades do povo e nas diretrizes da minha Congregação e da Igreja. Uma Congregação religiosa está na Igreja, e inteiramente ao serviço da sua missão.

Hoje, 48 anos depois, sou solicitado a sugerir algum conselho aos novos religiosos/as. A minha primeira reação foi: tenho algo a dizer? Minha vida foi tão exemplar? Claro que não foi; tenho nítida consciência dos meus limites e falhas. Mas, trabalhando num Santuário dedicado a um dos doze apóstolos, voltei-me a eles. Não eram perfeitos. Assim mesmo Jesus os escolheu e consagrou. Ao longo da vida, diante das minhas dificuldades e falhas, sempre renovava a minha certeza, com S. Paulo: “sei em quem acreditei” (2Tm 1,12). Levantava-me e repetia um dos lemas mais caros ao Pe. Dehon: “Eis-me aqui para fazer a tua vontade” (cf Hb 7,10). O que dizer aos jovens que hoje se consagram a Deus? Tateando, digo cinco coisas. Tomara que sejam úteis a um ou outro.

1. TENHA CALMA

Nas reflexões finais e decisivas para o meu discernimento vocacional, cerca de um ano antes da minha consagração, meu diretor espiritual me questionou sobre as minhas motivações para dar esse passo decisivo: se era a formação que eu havia recebido, o investimento na capacitação para os trabalhos específicos de um religioso, o fazer, ou se era o desejo de ser um homem de Deus. Fazer ou ser. A definição pelo ser foi o que me ajudou a perseverar até aqui.  Jovem religioso/a, não se preocupe com o que vai fazer nos próximos 50 anos. Na bela missão da Igreja, sempre haverá maravilhosos fazeres a assumir. Pense em como ser, no resto dos seus dias.


2. NÃO SE PRENDA AOS SEUS PROJETOS

Estar aberto ao Espírito, não preso aos projetos pessoais. Pois, por mais que eu sonhasse com belas coisas a fazer pela Igreja, pelo povo e pela causa do Evangelho, o que me foi pedido fazer – voto de obediência, fazer a vontade de Deus, não a minha – ultrapassou de muito os meus sonhos. Vivi transformações na vida da Igreja e na sociedade, do ponto de vista cultural, social e religioso, inimagináveis naquele início. Mas sei que o Espírito conduz a história. Por isso, deve-se amar a sociedade real na qual estamos efetivamente inseridos hoje ou estaremos amanhã, não a que ficou para trás; e colocar-se criativamente a serviço dos valores do Evangelho nessa sociedade. Então continuaremos a ser significativos enquanto pessoas consagradas.


3. ESTEJA ABERTO PARA O NOVO

Já há demasiadas pessoas (consagradas, sacerdotes e leigos), que querem viver hoje uma Igreja do passado. Queira estar com a Igreja que o Espírito quer para hoje. Isso exige espiritualidade, vida segundo o Espírito, numa palavra: “ser de Deus”. Queira ser criativamente fiel ao dom do Espírito, segundo o carisma da sua Congregação. Todo carisma é dom do Espírito, dom de vanguarda para ser testemunha do Evangelho para o mundo de hoje, para viver coerentemente o seguimento de Cristo. Isso supõe disponibilidade para o novo, não apego às seguranças do passado. A vida religiosa é seguimento de Jesus. Ele – Palavra da Salvação e Boa Notícia (evangelho) ele próprio, não veio para confirmar o mundo religioso judaico no status em que o encontrou. Assim Paulo, Francisco de Assis, Domingos, Tereza de Jesus, Dom Bosco, Pe. Dehon, Tereza de Calcutá, Frei Pio, Dulce dos Pobres e tantas mulheres e homens de Deus ao longo da história.


4. PEREGRINAR, SEMPRE

O caminhar do religioso é um permanente peregrinar. O peregrino está sempre andando, indo e vindo. Jesus sempre esteve. Não à toa que alguns grupos, dentre os primeiros cristãos, fossem conhecidos como os seguidores do Caminho. Esteja pronto/a para assumir novas missões, não exigidas por você, mas discernidas com sua comunidade, pela mediação dos seus superiores. Viva na liberdade do Espírito cada tarefa e cada momento da sua vida.


5. MANTENHA A HUMILDADE

Manter-se humilde, consciente dos limites, não autossuficiente, menos ainda autorreferencial. Nossa referência é Cristo, sob a luz do Espírito. É sábio e prudente ter um diretor espiritual, isto é, alguém com quem confrontar o nosso caminhar rumo ao Pai, e alinhar o nosso modo de peregrinar. Na humilde e sincera abertura ao outro, discernimos melhor o que o Espírito de nós espera, enquanto Deus nos quiser a seu serviço pelas estradas deste mundo.


Por último, peça para você mesmo e também para mim, a graça de adquirir e aprofundar três notas que deveriam marcar o ser de todo religioso: um profundo sentido da misericórdia do Coração de Cristo, grande fortaleza diante das tribulações e oposições, e a alegria de saber que somos servidores do Evangelho, não de qualquer causa menor (cf. Puebla, 383).

Pe. Cláudio Weber, scj

 

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